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Editorial #04
por Alcides Parreira

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MULTIPLICIDADE DE CAMINHOS E DE GENTES
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"Não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo"
Sócrates
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É-me difícil ouvir falar de "um Alentejo". Não que assuma uma perspectiva de divisão contaminada de regionalismos tacanhos, mas porque acredito acima de tudo na diferença, na multiplicidade de opiniões e vontades como suplemento vitamínico para uma sociedade saudável.

O "fechar de concha" defendido em surdina por alguns, seja face ao mundo que nos rodeia, seja face às demais sub-regiões do Alentejo, leva a uma perigosa consanguinidade cultural e social que conduzirá a um desfecho previsível, à perpetuação do status quo.

As diversas "espreitadelas" que temos encetado ao longo destes meses a temas internacionais, principalmente em áreas como a literatura ou o cinema, têm incomodado aqueles que defendem uma abordagem virada unicamente para dentro.

Consciente de que esta é uma publicação destinada ao Alentejo, recuso-me a pensar que por cá não existem cinéfilos seguidores de Woody Allen, leitores de Cossery ou fãs incondicionais de Bob Dylan.

Uma abertura efectiva ao exterior não implica perda de significado ou importância do que somos, de onde viemos e de quem nos trouxe até aqui. A preservação da identidade não obriga a um encerrar de portas e o tradicional só ganha força quando confrontado com uma cultura massificada.

No número anterior falámos das muitas origens do povo alentejano. Agora falamos dos que nos escolheram como destino. Falamos de diferentes olhares, de um Alentejo que nos foge debaixo de uma excessiva proximidade que nos cega e que muitas vezes nos afasta do que realmente somos. Culturalmente, economicamente, com participação cívica e contributos reais à sociedade.

Mas uma susceptibilidade quase subliminar face ao desconhecido continua a marcar comportamentos. Mesmo dentro da denominada "região Alentejo", as opções regionais continuam a vigorar face ao interesse geral. Baixo, Sul, Norte e Litoral continuam a demarcar fronteiras invisíveis e muitas vezes a cair no erro de privilegiar interesses próprios.

A transversalidade de políticas e um projecto de futuro conjunto têm vindo a ser aplicados aos poucos, com o fantasma da regionalização ainda a pairar no horizonte. Algumas instituições desbravam caminho e trabalham a uma escala regional, procurando cimentar sinergias e explorar potencialidades.

Do cimo da nossa pequenez, o nosso contributo surge na forma de alimentação de uma massa crítica vital para a região. A diáspora alentejana faz-se cá dentro e lá fora, com residentes, segundas gerações, "regionalizados" e meros simpatizantes do Alentejo.

Tentámos afastar logo de início a visão do próprio umbigo e levantámos a cabeça, tentando mostrar a todos um Alentejo que é de todos, compreendendo e ajudando a compreender.



Editorial #03
por Ângela Mendes

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ESTE ALENTEJO NÃO É PARA JOVENS EMPREENDEDORES.
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Aparecem no vazio do horizonte brechas de imaginação, juntam-se vontades, congregam-se esforços e lançam-se as vidas em projectos. Aposta-se tudo o que se tem, acreditando com força que a única resposta possível é o sucesso.

Mas o Alentejo continua a não ser para empreendedores. Enquanto uns se queixam da falta de interactividade entre as organizações, outros ainda estão presos aos velhos métodos feudalistas, dos quais a nossa região não se consegue libertar, e todos juntos dedicam-se mais à produção de demagogias do que à acção propriamente dita. Ao apoio real de projectos e à promoção da identidade Alentejana como algo a proteger e a divulgar.

Para alguns, o Alentejo é uma espécie de "reserva de Índios". Preparam a região para os que nos querem cá vir ver, a debatermo-nos por entre as ondas de calor no topo do Verão.

Esquecem-se dos que cá vivem, trabalham, investem e principalmente, gostam desta região o suficiente para se fixarem nela, mesmo sabendo que nada será fácil.

A Revista Pormenores é fruto desta paixão pelo Alentejo. Mas como todos os amores, trouxe consigo mais que alegria. Esta rosa tem espinhos. Tem a apatia geral das Instituições, tem o esquecimento a que fomos votados por muitos dos órgãos de comunicação regional. Tem a desconfiança por parte daqueles que não acreditam que as coisas possam ser bem-feitas e mesmo assim viáveis.

Ainda assim, os espinhos são pormenores para nós.

Trabalhamos com a certeza de construir um futuro melhor para o Alentejo.

Quem sabe talvez, abrindo caminho para outros projectos, para outros jovens que não tenham medo de arriscar, criando condições para que estabelecer a vida no Alentejo seja sempre uma opção viável e apelativa, e não apenas uma aventura perigosa que poucos estejam dispostos a viver.


MUITOS QUILÓMETROS DE ASFALTO ESCALDANTE E DE UM MUNDO INTEIRO POR DESCOBRIR...


Assim foi a viagem da Pormenores neste mês. Não vimos todo o Alentejo, mas quase. Desde Portalegre até ao Litoral, piscando ainda o olho à Costa Azul e olhando a sério para a Costa Vicentina.

Espreitámos a Bienal de Marionetas em Évora e o Festival de Banda Desenhada em Beja.

Viajámos rumo ao passado ancestral da região, através das Feiras de Mértola e Belver.

Rumámos ao Alentejo profundo para assistir a uma sessão do Doc’s Kingdom em Serpa e regressámos a casa, parando para refrescar no Alqueva.

Fazemos também nesta edição a antevisão do Festival Músicas do Mundo, em Sines, evento que se realiza desde 1999 e é já uma referência no panorama musical português e mundial

Esta é também a edição que marca o início da distribuição da Revista Pormenores a nível nacional. Para além do grande número de postos de venda já existentes em todo o Alentejo e na grande Lisboa, iremos também estar presentes em todo o País.

Uma pequena vitória desta redacção que consegue assim atingir mais um dos seus objectivos - levar o Alentejo mais longe. 


Muitos quilómetros depois, várias horas com uns expressivos 38 graus, fizemos um balanço. São tantas as coisas que nos separam, como as que nos unem. O Alentejo é, sem sombra de dúvida, uma mescla impressionante de cores, cheiros, culturas e ambientes.

Mas a beleza de um pôr-do-sol, após um dia escaldante, é igual em qualquer parte. Quando o sol começa a baixar e o vento quente e espesso abranda, transforma-se num sopro suave e fresco que paira no ar. Surge então um mundo de sensações, uma paleta infinita de cores e um festim de cheiros.

Nesse momento, sabemos o porquê de se amar tanto esta região. Esquece-se o dia escaldante e avança-se para uma belíssima e reconfortante noite de Verão.

E esse facto é igual, seja no sopé da Serra de São Mamede ou na planície árida perto de Beja...



Editorial #02
por Paulo Barbosa

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UM MÊS DEPOIS, CHEGAMOS NOVAMENTE AOS NOSSOS LEITORES.
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Iniciámos este projecto e lançámos o primeiro número como se já o fizéssemos há muitos anos. Ao mencionar este facto, não pensamos na qualidade inerente ao projecto. Pensamos sim na forma como, de um momento para o outro, apareceu um novo projecto editorial no Alentejo.

Fomos referenciados por alguns, ignorados por outros. Infelizmente, por enquanto, analisados por poucos. Felizmente, chegaram boas reacções de muitos lugares. Chegou-nos também uma polémica, relacionada com as afirmações na entrevista do Pedro Coelho. Afirmações sobre o Jornalismo e o estado em que se encontra o panorama do nosso ofício, não só a nível nacional, como internacional. Na nossa ingenuidade, talvez própria da idade, que reflecte o ambiente de uma redacção jovem, pensávamos - e ainda pensamos - que um novo projecto editorial poderia ser uma oportunidade para que os órgãos de comunicação social analisassem determinados aspectos, relacionados com um sector da sociedade que, todos os dias a comunicação social nos relembra, está em "profunda crise".

As frases que mais se ouvem, em relação à "crise editorial", prendem-se com aspectos que se confundem, e que acabam por ser resumidos a dois principais aspectos - as pessoas não lêem e os anunciantes, que ainda sustentam a maior parte das receitas dos órgãos de comunicação social, estão a retirar progressiva e massivamente a publicidade que possibilitou, ao longo de décadas, a sobrevivência dos órgãos de comunicação social.

Analisemos então o cenário mais catastrófico: se não existir publicidade, desaparecerá o jornalismo?

Que tipo de publicações tem o leitor ao seu dispor - mais uma vez, vamos tentar falar das nossas inquietações - no âmbito do jornalismo regional? Considerando que o mais importante é pensar no leitor, que procura informação sobre a sua região - ao invés de catálogos de publicidade - decidimos assumir um compromisso de publicar uma revista com conteúdos. Queremos que o leitor, ao ter contacto com a nossa publicação, a use para se informar e não para consultar apenas a agenda mediática ou para ficar a conhecer as empresas da região. Mas conseguirá uma publicação deste género sobreviver sem publicidade? Claro que não. Se o leitor quiser uma publicação em que os conteúdos sejam em maior quantidade - e qualidade - do que as páginas de publicidade, acreditamos que poderão também ser os leitores a sustentar a grande percentagem de receitas, que obviamente um projecto deste género necessita para ser viável economicamente.

Há uns meses, tivemos acesso a um estudo que apresentava os valores que uma publicação impressa obtinha nas suas receitas: 75% destas estavam ligadas, directamente ou indirectamente, às receitas provenientes da publicidade. Apenas 25% dependiam da venda da própria publicação. Muitos poderão eventualmente pensar que estamos a ser demasiados idílicos, ao lançar um projecto editorial que depende essencialmente da aceitação dos leitores, em vez das receitas de publicidade. Não acreditamos que, acabando o contributo da publicidade, o jornalismo escrito também acabe.

Acreditamos ser possível a Revista Pormenores sobreviver, em termos de sustentabilidade económica, dependendo apenas 25% das receitas provenientes da publicidade, e colocando nas mãos dos leitores a decisão de continuarmos ou não a existir.

Será esta uma atitude arriscada? Nós consideramos ser a mais razoável. Só assumindo este compromisso com os nossos leitores, poderemos oferecer uma publicação deste género.

Comprometemo-nos a produzir conteúdos que possam contribuir para a formação de uma massa crítica cada vez mais informada e atenta. Em função disso, acreditamos que o leitor quer uma publicação com conteúdos desenvolvidos de uma forma séria, contextualizados e organizados. Claramente, queremos ser lidos. Não produzimos conteúdos para serem lidos na "diagonal". Dizem-nos as vozes do "Restelo" que os leitores não estão habituados a isso... Não concordamos. Acreditamos que os leitores querem algo que os faça parar para pensar. Parar para saborear. Parar para reflectir. Parar para conhecer e compreender melhor.

Como leitores, nós próprios, teremos sempre algumas exigências, quando se procura uma determinada informação. Uma publicação mensal tem outras responsabilidades, que não as de um diário ou de um semanário. Embora não dependamos de igual modo de uma agenda mediática, estamos atentos a ela, mas de uma forma que não nos imponha um critério editorial que possa estar longe das ansiedades do dia-a-dia. Um dos problemas do jornalismo actual, talvez passe pela manutenção de uma grande distância entre os assuntos abordados na comunicação social e a vida real. O jornalismo de proximidade pode e deve ajudar a que esta distância seja cada vez menor.

Têm-nos chegado muitas opiniões nesse sentido: "A Revista Pormenores tem muito conteúdo. Não é demasiado? As pessoas querem coisas mais leves". Somos uma publicação mensal. Para ser lida devagar, como convém a quem queira reflectir sobre os mais variados aspectos da sociedade. Muitos leitores exigem uma informação mais aprofundada e não querem ver os assuntos retratados ao de leve. A preocupação gráfica e estética de uma publicação não deve fazer os conteúdos reféns. Queremos que a "Pormenores" seja agradável ao primeiro olhar. Mas queremos sobretudo, que tenha material para ser lido num "segundo olhar". Procuramos por isso opções estéticas que permitam conjugar estas duas preocupações, sem detrimento de nenhuma delas.

Pensamos que ainda existe algo sem preço nem custo: sonhar.

Com os pés bem assentes no chão, sonhar ainda continua a ser o que "faz pular e avançar o mundo".



Editorial #01
por Alcides Parreira

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NUM MUNDO GLOBALIZADO, IDEIAS GLOBALIZADAS.
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Uma informação veiculada por poucos e assimilada por muitos torna-se verdade, parte integrante e indissociável de uma pessoa, de uma etnia, de toda uma região, de um país. A diversidade apaga-se perante uma normalização desejada e imposta, em que a percepção de algo, certa ou errónea, se cola à pele e lhe corrói a vontade.

Actualmente, o que sobrevive do Alentejo é uma mão cheia de passado. Montados, um sol dourado pairando por cima das searas de trigo, açordas e grupos de cantares, pastores, artesanato e planícies a perder de vista, a perpetuação de uma imagem gasta contrária ao esforço diário de uma população que sonha com um desenvolvimento económico e social que tarda em chegar.

Durante muito tempo sob o chapéu de uma apatia induzida, os alentejanos começam a trilhar outros rumos, longe do sentimento de inferioridade que tantas vezes lhes era imputado e que tantas vezes lhes fizeram sentir. Conscientes das potencialidades da tradição, adaptam-na às novas leis de mercado, tentando deixar para trás uma dependência excessiva face ao sector público e a um sector primário em constante agonia.

É dentro deste espírito de inovação que procuramos inserir-nos. Provar que interior não é sinónimo de provincianismo e que um público exigente e atento não é exclusivo dos grandes meios urbanos.

Ao longo do tempo de edificação do projecto Pormenores, em que clarificámos ideias, apontámos agulhas e passámos pela sempre dolorosa burocracia – com ou sem Simplex – a esmagadora maioria das opiniões que ouvimos vinham em forma de alerta: tempo de crise, tecido empresarial debilitado, imprensa em decadência, desertificação ou desinteresse geral. Conscientes das dificuldades, pensamos o contrário. Pensamos que jornalismo é educação, valorização e crítica construtiva, elogio e condenação. Pensamos que o destinatário da nossa mensagem está cá, Alto, Centro, Sul ou Litoral alentejano. Que a procura de uma informação aprofundada é crescente e que os temas por explorar são imensos.

Não chegamos convictos de tudo saber. Temos a perseverança dos aprendizes e a teimosia para procurar sempre melhor, mas isso não seremos nós a julgar. Isso caber-vos-á a vós. A nós cabe-nos tentar manter – e tentar melhorar – a qualidade dos conteúdos, fotografia, ilustração e grafismo, alargar o leque de parceiros e levar a realidade de hoje aos de dentro e aos que estão lá fora, para conhecer e compreender melhor o Alentejo.